ENTREVISTA EXCLUSIVA COM QUESTLOVE
07/09/2008 às 7:33 pm“Não considero o The Roots um grupo grande. Acho que ainda tem muita coisa para acontecer”, assim responde ?uestlove, sobre o fato de ser a principal atração do Hip Hop Kemp 2008 (Kradec Kralove, República Tcheca). Mas não teve jeito. Nos três dias de festival, era só se aproximar de uma rodinha e, por mais diferente que fosse a lingua falada, em algum momento da conversa o nome The Roots surgiria. E foi assim: por pouco mais de uma hora, com direito a um bis de SÓ três músicas, o som flertou muito mais com bares de jazz de New Orleans do que pelas festas clássicas de rap do Harlem. Mas será que vai ser assim daqui para frente? Os principais grupos Hip Hop que influenciaram o movimento entre os anos 90 e começo de 2000 preferem olhar para um passado glorioso do jazz e outros ritmos negros a se desesperarem olhando para o futuro incerto em que ritmo e poesia definitivamente não são requisitos para uma boa música? Confira abaixo o que ?uestlove acha de tudo isso.
Por Maria Eugênia Tomazini
Dá para sentir alguma diferença entre tocar para público do leste europeu comparando com qualquer outro país do ocidente?
?ueslove: É a segunda vez que viemos para República Tcheca. A primeira vez foi numa participação de um filme porque desde que Hollywood decidiu que Praga está na moda, tudo quanto é filmagem se passa por aqui. Mas mesmo assim acaba sendo diferente por causa da forma como as pessoas encaram o Hip Hop aqui. Na América, porque o Hip Hop tem 30 anos, é muito mais difícil surpreender um público específico. Aqui as pessoas apreciam mais a música e todo o movimento.
Então você quer dizer que como as pessoas viram menos coisas desse lado do mundo, talvez tenham menos críticas?
Na América o Hip Hop só existe com o propósito financeiro. Você não faz um show sem o espetáculo de luzes, mega-produções, uma empresa inteira de relações públicas para garantir que nada seja dito errado. Mas no resto do mundo, e principalmente por esses lados, o Hip Hop é tratado como arte. Quase algo sagrado.
E a busca pelo jazz, no caso do The Roots, seria uma forma de tentar encontrar essas raízes artísticas que o Hip Hop na América se esqueceu?
Estamos tentando representar todo um movimento de rock, soul, R’n’B, jazz, funk e, claro, rap. Pelo que tenho visto, a bandeira que o Hip Hop asteou em 1994 está em perigo. Por exemplo, além do The Roots, só existe mais alguns poucos grupos de Hip Hop formado por negros que tem contrato com grandes gravadoras. Os outros grupos vão para o underground ou desistem. Tem alguma coisa errada, não é?
Mudando de assunto, o The Roots têm planos de fazer outro show no Brasil?
Claro que sim. Adoraria, ainda mais porque respeito muito a música brasileira. No final do ano, por volta de outubro, sempre tem um pessoal que nos liga, manda e-mail sondando a possibilidade de irmos para o Brasil e tal..mas no final nunca dá certo. Somos um grupo de 7 membros mais 6 pessoas no staff. É muito dinheiro. Por isso vocês precisam arrumar patrocínio. (risos)
Já que você diz que gosta de música brasileira, tem alguma coisa em específico? E que você está ouvindo agora?
Além dos clássicos Tim Maia, Jorge Ben, João Gilberto, Tom Jobim, Nara Leão e Sérgio Mendes tenho ouvido um outro cara que não consigo lembrar o nome. (?uestlove pára e fica alguns minutos pensativos) Não acredito que não consigo lembrar. Estou com o album no hotel ainda comentei hoje com o pessoal sobre esse músico. Me manda um email que prometo que te digo. Senão não vou conseguir dormir. (risos)
Ah, e além desse brasileiro que não consigo lembrar o nome, também tenho ouvido J-Dave, Jerzee Monet, Sa-Ra e Esperanza Spalding. Tenho ouvido mais coisas com levada de jazz mesmo….
Última pergunta, curta e grossa: E o Hip Hop tem jeito?
Estamos na estrada há 17 anos. Nenhum grupo consegue ir tão longe. Se não desistimos é porque ainda acreditamos no Hip Hop…..risos.




